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Quando nossos amigos souberam da nossa decisão de voltar para o Brasil depois de dois anos vivendo na Irlanda, as reações eram praticamente as mesmas: “Mas por que vocês vão voltar?”, “Vocês são loucos? O país está quebrado!”, “Se eu fosse vocês eu não voltava nunca mais.”.

Sim, nós sabemos disso tudo. E também sabemos que as intenções eram as melhores possíveis em nos alertar sobre a situação do país. Num primeiro olhar, seria lógico continuarmos a morar na Irlanda, afinal, ambos estávamos empregados e nesses dois anos conseguimos realizar sonhos como fazer a travessia do Caminito del Rey e a trilha para a Trolltunga, por exemplo. Acontece que nem só de decisões racionais somos feitos e movidos.

Trilha para a Trolltunga na Noruega visual incrivel odda
Trolltunga Noruega. Um dos lugares mais incríveis que conhecemos em nossas viagens

Ao todo foram 12 países visitados e experiências incríveis vividas! Portugal, Espanha, França, Escócia, Inglaterra, Marrocos, Bélgica, Noruega, Holanda, Grécia, Itália e Malta. Incrível né? Quem não quer fazer esse tanto de viagem? As pessoas viam nossas fotos viajando pelo mundo, mas ninguém sabia o que nós passamos por lá. Ninguém sabia como era o nosso dia a dia. Ninguém fazia ideia de quanta coisa nós tivemos que abrir mão para viver esses dois anos lá.

Como fomos parar na Irlanda

Fomos para a Irlanda pelo inglês, claro e também pelo facilidade de usar Dublin como base para viajar para outros países. Nossa ideia inicial era ficar 6 meses morando fora, mas quando esse prazo começou a se esgotar, começou a bater aquele sentimento de que havia tanto a se fazer e começamos a correr atrás para fazer “aquela vida” durar mais. O dinheiro que juntamos para fazer o intercâmbio tinha acabado e, com isso, passamos por vários sub empregos para tentar levantar uma grana e prolongar nossa estadia em Dublin.

Contamos algumas dessas nossas experiências no post “O segredo daquele amigo que vive viajando“, mas entre outras coisas a Jéssica trabalhou por um tempo na porta de um restaurante, mostrando o cardápio do estabelecimento para os clientes. Acontece que o inverno em Dublin é um pouco rigoroso e mesmo com chuva, num frio de 0ºC ela não podia faltar o trabalho. Outro sub emprego que ela conseguiu nesse tempo foi de garçonete, que durou menos de duas semanas após ela ter ouvido várias grosserias do cheff de cozinha.

Como meu inglês era péssimo nos primeiros meses era consequentemente mais difícil ainda conseguir algum sub emprego. Então eu comecei a entregar cerveja de madrugada. Depois das 22h todos os mercados fecham e não há lugar nenhum para comprar cerveja no país. Então o que você faz se acaba a cerveja na festinha que está rolando na sua casa? Você liga para o Disk Cerveja du Zé! Sim, o Zé era eu! Comprei uma bicicleta, fiz um perfil no facebook (que você pode conferir clicando aqui) e anunciava em grupos no facebook de brasileiros morando em Dublin. Saia para entregar cerveja no meio da madrugada, muitas vezes chovendo e fazendo muito frio.

Além desses, tivemos vários outros empregos que bem ou mal nos ajudaram a financiar as viagens que contamos aqui no blog, até que depois de 6 meses encontramos os empregos que seriam os nossos empregos fixos, até o nosso ultimo dia vivendo na Europa. A Jéssica conseguiu um emprego num hotel e eu numa locadora de carros. Foram muitas as dificuldades nesses empregos também, mas isso será tema de um vídeo no nosso Canal no Youtube.

trabalho na irlanda
Eu com a galera do trabalho

Mas nem só de euros se vive

Sim, nós somos muito gratos aos nossos chefes e graças a esses últimos empregos podemos visitar lugares que nunca imaginei que iria conhecer pessoalmente algum dia, mas por mais que o salário fosse generoso, a saudade começou a apertar bastante.

Enquanto ganhávamos experiências fora, conhecíamos países e pessoas tão diferentes, nós também perdíamos momentos preciosos no Brasil.

E as datas comemorativas? Você já passou algum Natal longe da sua família? Dia das Mães, Dia dos Pais, aniversários de familiares e de amigos. Nós tivemos que abrir mão disso tudo. Além disso, eu perdi o casamento da minha irmã aqui no Brasil por estar vivendo na Irlanda.

Nós tivemos que abrir mão das saídas com os amigos, das conversas com pai/mãe sobre coisas da vida. E por favor, não venha me dizer que “o skype está ai para matar a saudade”. Nada substitui uma conversa olhando nos olhos da pessoa, um abraço ou um beijo.

E quando os pensamentos ruins passavam pela cabeça? Eu tenho uma avó com seus oitenta e poucos anos. Meus pais também não são tão novos. A qualquer momento poderia acontecer algo com eles. E se uma coisa acontece enquanto eu estou fora do país? Longe de todo mundo? Um dos nossos maiores medos era esse. Em dois anos tanta coisa aconteceu. A Jéssica perdeu duas tias próximas, ao mesmo tempo, tantos bebês nasceram, amigos casaram, outros terminaram e por ai vai.

Não é fácil. Só quem passa ou já passou por isso entende exatamente o que eu quero dizer.

Foram exatamente dois anos morando fora, morando juntos. Foram 12 países viajados, amizades (com pessoas de países que nem conhecíamos como as Ilhas Maurício) que vamos levar para o resto da vida, um pedido de casamento e uma experiência de vida única. Um ciclo que se fecha para dar início a outro, dessa vez aqui no Brasil.

Diante de tantas incertezas de como serão as coisas por aqui, apenas uma coisa é certa: era hora de voltar.


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Sobre o autor

Carioca da gema, flamenguista, psicólogo e apaixonado por fotografia. Para ele, qualquer lugar é perfeito com céu azul, sol e uma cerveja gelada. Após dois anos morando em Dublin, é hora de retomar a vida no Brasil e desbravar cada cantinho do nosso país.