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Se você já morou fora do Brasil, seja por meses ou anos, quando retornou com certeza ouviu de amigos e parentes: Mas por que você voltou? Já contamos um pouco aqui sobre os motivos que nos levaram a sair da Europa e voltar a morar no Brasil após dois anos fora. Resumidamente, a vida de um imigrante sem o passaporte europeu no velho continente envolve muita burocracia e muito esforço. Foi bom e muito produtivo por um tempo, mas a longo prazo, quando você começa a pensar em família, tudo se torna mais complicado.

Embora esse período que passamos em Dublin tenha tido muitos altos e baixos, ultimamente volta e meia tenho pensado no que estaria fazendo caso não tivesse retornado. Será que ainda estaria no mesmo emprego? Será que ainda teria um emprego? Será que teria tido mais sorte esse ano com o tempo? Será não teria valido a pena mais algum tempo vivendo num studio ou dividindo quarto para tornar essa estadia fora mais longa?

Amanhã completa dois meses que retornamos. Com dois meses de Irlanda eu chorava de saudades e queria trocar as passagens para pegar o primeiro avião e vir embora. Hoje, com dois meses de Brasil me pergunto se não teria sido legal ter ficado mais um pouco por lá.

Diferentemente de muita gente que conheci nesses anos fora, eu não odeio o Brasil. Não sou daqueles que juravam que nunca retornariam. Sempre encarei o tempo fora como temporário, um ciclo que chegaria ao fim. E foi essa consciência que nos fez aproveitar tanto cada segundo, cada euro, cada amizade nova.

Amigos queridos que fizemos em Zakynthos, Grécia.

A maior angústia ao retornar é que tudo, absolutamente tudo parece normal demais. Parece que o tempo não passou em alguns aspectos. O trânsito continua ruim (senão pior), o BBB e o Faustão continuam na programação, as pessoas ainda estão debatendo sobre o que define ou não uma família. Oiiii???

Ao retornar acaba o sentimento de espanto (no bom e no mal sentido) a cada nova descoberta. Acabamos ficando meio chatos porque nossa cabeça automaticamente começa a comparar cada um dos aspectos de nossa vida: desde o preço do combustível (e da Nutella!!!) até as diferenças salariais (lembrando que vivemos muito bem nesses últimos anos ganhando apenas o salário mínimo irlandês, algo impensável aqui no Brasil). É ver no jornal da TV o repórter lamentando a queda no volume de compras de carro no país, na internet pessoas criticando a implantação de ciclovias e ver no twitter como o trânsito vive sempre um caos… E ninguém notar que o mundo inteiro está fazendo o movimento contrário não incentivando o número de carros e investindo cada vez mais em transportes limpos.

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Vondelpak em Amsterdam, Holanda.

Se eu não tivesse retornado ao Brasil talvez estivesse programando uma próxima viagem aproveitando as promoções de baixa temporada das companhias low cost. Talvez estivesse aprendendo mais em um país cuja grande maioria se declara católica, aceita as diferenças do próximo (o casamento gay, não apenas a união estável, foi aprovado em maio de 2015) e protesta a favor dos seus direitos sem pichar ou destruir patrimônio público (as manifestações tem hora e local para acontecer e nunca podem interromper o “andamento da cidade”).

Ao mesmo tempo, se eu não tivesse retornado ao Brasil, não teria revisto e tido a chance de conviver com tanta gente querida, incluindo nossos familiares. A saudade ainda seria imensa e acima de tudo não teria como tentar conscientizar cada pessoa próxima a nós de como algumas coisas que são tão comuns em nosso dia a dia, estão erradas.

Não voltar é uma escolha e respeito também quem a faz. Mas se você, assim como nós, já voltou, use toda a experiência que você adquiriu fora não para apenas falar mal do Brasil e se lembrar apenas da parte boa de morar fora. Lembre-se também da parte ruim de morar fora e use seu conhecimento de mundo para melhorar um pouco aqui, o seu país.

Se eu não tivesse retornado talvez os meus dois últimos meses teriam sido mais animados e menos estressantes (com tanta burocracia que precisei colocar em ordem), talvez agora estivesse conhecendo outro país. Mas já voltei. Fazer as mesmas coisas, ir aos mesmos lugares e etc nada mais é do que uma opção. É preciso viver sempre como se tudo fosse uma fase que pode acabar.

Você também não precisa se readaptar totalmente ao Brasil porque “as coisas são assim e pronto”, mostre que é possível de outras maneiras, questione, faça do jeito que sua consciência acha certo. Não adianta reclamar da demora na entrada dos ônibus e achar lindo que no exterior a compra de passagens seja numa máquina e não tenha roleta para entrar se você pula roleta ou usa carteirinha de estudante falsificada. Não adianta fazer campanha para receber sírios refugiados no facebook ou mudar a foto de perfil “em protesto” e não ajudar efetivamente ninguém. O país que se vive não deveria mudar as pessoas e sim as pessoas mudarem o país que se vive.


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Sobre o autor

Niteroiense de nascença, Botafogo de coração, Relações Públicas por formação, blogueira e viajante por paixão! Ama destinos históricos e visitar Museus em todo o mundo, mas não dispensa uma boa praia. Para ela, uma viagem não está completa sem apreciar (e bem) a culinária local e as lojas, claro.

  • Faz bem voltar mesmo com as mudanças ….me sinto muito bem de volta!

    • Jessica Veneravel

      Cada um reage de uma forma de diferente à volta. Que bom que foi positiva para você também Sol 🙂

  • Willian Fidelis de Lima

    Texto maravilhoso. Penso exatamente igual a você. Acabei de chegar aqui em Dublin tem um mês e vou viver essa aventura. E quando retornar ao nosso Brasil quero ter esta mesma perspectiva e visão. Fico feliz em ver que existem pessoas que pensam assim. É deste tipo de gente que precisa pra mudar de fato o nosso querido país. Bom retorno pra você e boa chance de um novo trabalho por aí.

    • Jessica Veneravel

      Obrigada Willian! Tomara que a sua experiência em Dublin seja tão boa como a nossa! Aproveite bastante tb e vlw pelo apoio!