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Todos os países e culturas do mundo sofrem com estereótipos. Que o digam, nós, brasileiros que somos sempre lembrados pela trinca samba+bunda+futebol. É claro que esses “personagens” que parecem representar todo um país não foram simplesmente inventados por algum estrangeiro. Em muitos casos, os estereótipos tem algo de real, mas não podem serem vistos como verdades absolutas. Um estereótipo que vira e mexe vejo correr em redes sociais é o do Irlandês, educado e amigo. Depois de algum tempo vivendo, trabalhando e convivendo com eles, achei justo dividir o que há de real e o que não há nesse “personagem”.

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A educação dos irlandeses

É a primeira coisa que todos os brasileiros percebem e começam a difundir aos quatro cantos: “os irlandeses são muito educados, eles pedem sorry para tudo”. Sim, os irlandeses em geral são muito educados, em especial os mais velhos. Eles gostam de conversar, de contar a história da cidade e são ótimos para dar informações na rua. A pessoa pode estar dentro de uma loja fazendo o trabalho dela ou passeando na rua com seu cachorro, não importa ela vai parar e tentar te ensinar o melhor melhor caminho para chegar onde você quer. Aliás, conversando com meu professor (irish) descobri que é falta de educação simplesmente falar “eu não sei” quando alguém pergunta sobre um endereço ou local na rua. Mesmo que você realmente não saiba, você tem que tentar ajudar o pobre turista perdido perguntando de ruas próximas, referências ou apontando alguém que possa ajudá-lo.

Educação ou hábito?

Sobre o tão falado “sorry”, não é exatamente um reflexo da educação e sim de baixa estima. Sério! Em uma aula espirrei e falei “sorry”. Minha professora logo me corrigiu dizendo que “era muito irish” falar “sorry” para uma coisa que eu não controlo. Continuamos a conversa e ela me explicou que esse excesso de desculpas é derivado dos anos de dominação do país, primeiro pelos vikings e depois pelos ingleses. Como eram tratados como inferiores, eles começaram a se sentir assim. Hoje é claro que muita coisa mudou, mas a independência do país é muito recente (1922) e mesmo os mais novos ainda conservam hábitos e atitudes que vem dessa época de submissão. Atualmente, há até um comercial na TV sobre seguros, onde um personagem fala “Por que os irlandeses nunca conseguem falar quando uma coisa os incomoda?”

Deu o horário? Tchau!

Enquanto uns afirmam que os irlandeses são o exemplo de educação pelos mil “sorry’s” ditos ao longo do dia, outros já os acham mal educados por às vezes serem bem diretos. Horário, por exemplo, é um conceito muito respeitado. É comum em lojas ou mesmo até nos pubs que os seguranças passem avisando os clientes de que o estabelecimento vai fechar. E não faz diferença se você está com uma peça de roupa nas mãos para comprar ou se quer apenas terminar a sua pint. Eles são bem diretos e expulsam mesmo. Já aconteceu de estarmos em uma loja por volta das 17h55 e o segurança já vir falar “boa noite, estamos fechando”. A princípio pode parecer um pouco de falta de educação com os clientes, pois no Brasil a lógica é que o cliente sempre tem razão. Quem nunca ficou até tarde em bares do tipo fecha quando o último cliente sair? Mas é educação com o trabalhador do local.

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Lojas e pubs do Temple Bar

Respeito no trânsito

Como falamos no Primeiras Impressões, Dublin tem um sistema bem legal de ciclovias que interligam a cidade. Além do aluguel de bicicletas na cidade, há também bicicletários espalhados pelo centro (D1 e D2). Uma verdade sobre os irlandeses é que eles respeitam e muito o ciclista. Apesar das ciclovias, há momentos em que os ciclistas precisam transitar entre os carros para pegar uma saída ou coisa do tipo. Desde que se dê o sinal, os motoristas desaceleram e dão passagem na maior boa vontade. Já vi algumas vezes ônibus andando a quase 10km por hora porque haviam um ciclista na sua frente. Pensam que qualquer dos motoristas buzinou? Nunca! Eles esperam e respeitam.

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Fonte: irishcycle.com

Outro indício de educação no trânsito que eu sei que vou sentir muita falta quando tiver que ir embora é o respeito aos sinais. Os sinal vermelho é respeitado até altas horas da noite. Não interessa se há alguém na rua ou não, os motoristas esperam.

O valor da palavra

Realmente na Irlanda não há tanta burocracia como Brasil. Nós mesmos conseguimos alugar um flat direto com o proprietário sem ser necessário fazer um contrato tal como no Brasil, sem registro em cartório, tudo na base do preenchimento de alguns dados em um formulário e, principalmente, confiando na palavra do proprietário (e ele na nossa). Os empregos que tive também foram acertados na base da confiança. Primeiro entreguei meus dados e documentos, trabalhei, recebi e só depois que fiz um registro formal. Acertar encontros, reuniões, trabalhos, tudo por telefone é comum entre os irlandeses. Enquanto no Brasil lembro que haviam pessoas que mesmo após estar tudo acertado em uma reunião ou conversa por telefone pediam “pode mandar um e-mail para formalizar isso?”. Aqui palavra é palavra, ao menos para a maior parte dos irlandeses.

Atenção aos golpes!

Assim como em todos os países, há sempre pessoas boas e pessoas ruins. Maravilhados com esse excesso de informalidade e confiando no “valor da palavra” dos irlandeses, muitos brasileiros já caíram em golpes. Esse aconteceu com amigos bem próximos: um irish abordou um brasileiro perguntando se ele estava em busca de trabalho e ofereceu a ele 90 euros por dia de trabalho em um terreno de obra. Ao todo seis brasileiros foram com a mesma proposta e passaram uma semana trabalhando carregando entulho, cavando e fazendo de tudo. Ao final do trabalho o irlandês deu uma desculpa e não apareceu para entregar o dinheiro. Depois de várias tentativas de contato com o tal “contratante”, os brasileiros se dirigiram à GARDA, a polícia da Irlanda, para ver como poderiam receber o dinheiro e denunciar o golpista. A resposta? Não podiam registrar nada porque não haviam provas de que o irlandês tinham prometido pagar a eles, a única prova que tinham era que eles tinham trabalhado no terreno. Nada mais.

Outro caso que vi publicado em um grupo era sobre o golpe da venda de eletrônicos a preços muito baixos. Um irlandês abordou um casal dizendo que precisava vender um laptop porque estava desempregado e precisava de dinheiro. Como o preço era bem atrativo, o casal topou a compra e quando voltou com o dinheiro o “vendedor” estava dentro de um carro com outro homem. Ele pediu que os dois entrassem e eles o fizeram. Enquanto o casal passou o dinheiro e recebeu uma mochila fechada. Logo que desceram do carro, o motorista arrancou. O que tinha dentro da mochila? Farinha! Uma semana depois eu e o Bruno fomos abordados por um irish de dentro de um carro que também nos ofereceu um laptop…

Não estou dizendo que os irlandeses não são confiáveis, mas que um povo inteiro não podem ser visto de forma generalista. Vejo tantas pessoas celebrando como é bom poder confiar na palavra dos irlandeses que simplesmente ficam cegos a golpes simples. A dica é, aproveite a rapidez que o dia a dia sem burocracia ou tantas mil confirmações podem trazer, mas não faça coisas que você não faria no Brasil. Se num país onde você domina a língua, conhece os lugares e costumes você não arriscaria ir andando com um desconhecido, que acabou de te abordar na rua e ir andando até uma rua X, pois ele alega ser dono de um restaurante ou coisa do tipo e te prometeu um emprego (outra modalidade de golpe que acontece mais com mulheres), por que arriscar na Irlanda? Só porque está na Europa não há perigo? Pé atrás nunca matou ninguém, em lugar nenhum do mundo.

País de mocinhos, sem bandidos

A sensação de segurança em Dublin é real. Mesmo a noite é normal andar pelas ruas do centro sem o medo de alguém vir e te assaltar. Eu mesma já voltei sozinha para casa de madrugada e não havia ninguém nas ruas. É como se a cidade, o país fosse só dos “mocinhos”. A própria GARDA não anda armada, pois os bandidos também não tem armas. Sim, porque existem criminosos aqui também. O país é considerado um dos mais seguros do mundo, mas como já vimos não podemos generalizar. Notícias de assassinatos são raríssimos. Os crimes mais comuns de se ouvir são os arrombamentos de casas seguidos de roubo e furtos. Nas ruas do Centro mais movimentadas como a Mary Street  e Grafton Street (ruas onde existem várias lojas de departamento), é comum queixas de bolsas abertas e carteiras furtadas. Roubo de bicicletas mesmo em locais movimentados e públicos também são comuns. Apesar de mais raros, também acontecem roubos de celulares, onde o ladrão pega o aparelho da mão da vítima e sai correndo ou, como aconteceu com um amigo, dá um soco na mesma e rouba a vítima desmaiada. Então, não é porque o país é seguro que não é preciso cuidado. Atenção com mochilas e bolsas e evitar atender o celular em certos lugares é dica para todos os lugares do mundo.

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Grafton Street. Foto de Robzle, via Wikimedia Commons

Assim como nem todos os brasileiros são mulatas rebolativas ou malandros, nem todos os irlandeses são amigáveis e confiáveis. Um país é feito de indivíduos e, como tais, podem ser bons ou ruins. A Irlanda é sim um ótimo e seguro país para se morar, mas nem por isso devemos ficar iludidos e esquecer tudo o que aprendemos no Brasil. A todos que me perguntam, eu indico a experiência de morar aqui, para se ter contato com essa cultura tão rica. Mas também aconselho a não virem pensando que estão entrando em um conto de fadas. Desconfiem de tudo o que parecer bom demais. E sempre que ouvirem alguma definição bem marcada como “franceses são esnobes”, “ingleses são frios” ou “irlandeses são amigos, confiáveis e alegres”, lembrem-se que você brasileiro também não é “bunda e futebol”.


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Sobre o autor

Niteroiense de nascença, Botafogo de coração, Relações Públicas por formação, blogueira e viajante por paixão! Ama destinos históricos e visitar Museus em todo o mundo, mas não dispensa uma boa praia. Para ela, uma viagem não está completa sem apreciar (e bem) a culinária local e as lojas, claro.

  • Luli Berto

    Muito obrigada por compartilhar suas impressões. Realmente a gente que está de longe programando ir para a Irlanda só fica sabendo do lado positivo praticamente. No máximo falam das dificuldades de se arrumar emprego, as condições climáticas mais hostis e a saudade de casa. Pouco se fala dos perigos que podem ser encontrados por aí. Não que seja como São Paulo, por exemplo, mas também não é motivo para baixar a guarda só por estar num país com baixa criminalidade. Uma conhecida minha esteve em Dublin no ano passado e teve seu cartão de crédito clonado duas vezes. Não entendi muito bem o que aconteceu (pois não tive a oportunidade de conversar direito com ela sobre isso), mas ela falou algo sobre uma “máfia do cartão de crédito”. Sabe alguma coisa a respeito? Pareceu bem preocupante!

    • Jessica Veneravel

      Oi Luli,
      Valeu mesmo! Ficamos felizes de o texto ter sido útil. Escrevemos não pensando em fazer alguém desistir de vir para cá, mas para que todos venham com os pés mais no chão. Nunca ouvi falar em golpes envolvendo o cartão de crédito aqui, ao menos não entre os brasileiros. Até porque não é comum que os brasileiros que vêm na condição de estudante tenham cartões de crédito pelos bancos da Irlanda e fazer compras pelo do Brasil sai bem mais caro. Mas de qualquer forma, cuidados básicos como desconfiar se levarem o cartão “para passar” longe de onde você possa ver, não custam e previnem muita dor de cabeça. Abs!

      • Luli Berto

        Erro meu. Não era cartão de crédito, era cartão normal do banco Irlandês. Como uma boa brasileira estou tão acostumada ao cartão de crédito que saiu sem querer. rs

        • Jessica Veneravel

          Rsrs.Sei bem como é. Sobre o golpe, mesmo sendo cartão normal nunca ouvi falar desse tipo de coisa por aqui. Eu, por exemplo, sempre saco dinheiro para fazer as compras. Algumas lojas como a Dunnes e mercados como Tesco, Spar e Centra tem um caixa ATM dentro. Abs!